PERGUNTA FREQÜENTE EM PALESTRAS PELO BRASIL É SOBRE QUAL A MONTANHA mais difícil que já escalei. A resposta mais acertada para esta questão é que as montanhas e vias são tão diferentes entre si que é quase impossível dimensionar a dificuldade ao subi-las. E se as montanhas do Parque Nacional de Yosemite, nos Estados Unidos, possuem as rotas mais técnicas do planeta, nossa Pedra do Sino, em Teresópolis, no Rio de Janeiro, também tem seus segredos guardados pela pedra decomposta, a temperatura quase glacial e os fortes ventos. E a Main de Fatma, no Mali... Bem, a África também tem suas formas de persuasão para filtrar quem quer subir suas escarpas.
Em 1994, os escaladores alemães Kurt Albert e Bernd Arnold me falaram sobre o Mali pela primeira vez. Disseram que lá, na fronteira da área em desertificação da savana com o deserto do Sahel, está uma das maiores concentrações de paredes do mundo, uma extensão de mais de 100 quilômetros de rochas de 300 a 600 metros de altura, de excelente qualidade. Após uma tentativa frustrada pela burocracia de escalar o Salto Angel, na Venezuela, parti para conferir estas paredes com Márcio Bruno e Sérgio Tartari em 1996, ocasião em que conquistamos a rota Solução Suicida, primeiro itinerário brasileiro e, durante muito tempo, a rota mais difícil do continente negro. Naquela ocasião, sofremos muito para abrir a rota, mas a força de deixar algo para trás e o perfeito entrosamento da equipe permitiram uma linha impecável no Kaga Tondo, maior torre rochosa africana. Trabalho finalizado, jurei não pisar mais naquele lugar. Mas a vida nos reserva surpresas que só são reveladas com o passar dos anos.
Em 2005, escalando com o amigo Fernando Leal nas montanhas da Serra da Mantiqueira, falei a ele sobre o conjunto La Main de Fatma (As Mãos de Fátima), formado pelas montanhas Kaga- Pamari, Kaga Tondo, Wangeldebridu, Wanderdu e Suri Tondo. De espírito aventureiro, Fernando já havia subido algumas montanhas no Ceará e sua boa adaptação ao calor logo despertou nele o interesse por uma temporada no deserto africano. Assim, iniciamos um treinamento intensivo para escalarmos no verão, pois as duas opções de temperatura no Mali têm suas desvantagens. No inverno, o clima fica agradável, mas a malária corre solta no país. Já no verão, a possibilidade de contrair alguma doença transmissível por insetos é bem mais longínqua, mas o calor...
Por causa disso, para completar o projeto de conquistar uma nova rota no Suri Tondo, fez-se necessário mais uma força, e foi então que Fernando convidou o escalador mineiro Gustavo Pianca para a equipe. No início de junho, com 220 quilos de bagagem, nos encontramos para uma viagem aérea de dois dias até o coração da África.
ATERRISSAMOS NO AEROPORTO DE BAMAKO às 20 horas, num calor acima dos 30°C. Gente correndo por todo lado e agarrando nossas malas, estresse para tirar o visto de entrada e discussão com pseudoguias foram apenas o começo. Se arrependimento matasse, eu morreria no aeroporto. Como não havia outro jeito a não ser assumir a culpa e a burrice por ter esquecido como era tudo aquilo, tivemos que resolver a situação e arranjar um lugar para dormir. No dia seguinte, o panorama pareceu um pouco melhor. Conseguimos resolver as burocracias e acertar o ônibus para nosso destino.
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| CHAPA QUENTE: Fernando Leal na conquista da rota Filhos do Sol no Wanderdu. Na outra página, o conjunto La Main de Fatma, em Hombori, no Mali, formado pelas montanhas (da esq. para a dir.) Kaga-Pamari, Kaga Tondo, Wangeldebridu, Wanderdu e Suri Tondo |
Um dia inteiro na rodoviária e estávamos a caminho das montanhas. A viagem de ônibus é um caso à parte, quase um sonho surrealista. Num calor insuportável, o ônibus que não possuía janelas também não tinha ar-condicionado, além de uma galera tossindo em todo canto.
Assim que você respira o ar maliano, entende de uma forma ou de outra que escalar na África é uma tarefa muito mais complicada que apenas gerenciar a subida de uma parede. É um aprendizado mais complexo, que diz respeito a tolerância com o meio, seus amigos e suas próprias fraquezas, paciência e experiência de vida. A todo momento você é testado e, se não estiver preparado, vai transformar sua viagem em um pesadelo ou tragédia.
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