Provence
QUANDO ME CONVIDARAM para escrever matérias de turismo, me deram duas
opções: poderia voar para a Coréia do Norte e tentar escapar dos funcionários
do governo americano, dos quais eu estaria sob tutela, para achar recreações
ao ar livre que poucos ocidentais já tiveram a chance de experimentar,
ou eu poderia me juntar a um seleto grupo numa viagem de bicicleta para
explorar os sentidos - principalmente o paladar - na região de Provence,
no sudeste da França. Ah, pedalar pelos campos repletos de lavanda, oliveiras
e vinhedos franceses, sob os cuidados da Butterfield & Robinson, agência
canadense especializada em roteiros sofisticados de bicicleta e caminhada
pelos melhores points do planeta... Não é difícil adivinhar qual dos dois
eu escolhi.
Enquanto o trem-bala seguia rumo ao sul a 290 km/h acompanhando o rio
Rhône em direção a Avignon, fiquei pensando nos consagrados sabores dessa
região francesa delimitada a leste pelos Alpes e pela Itália, a oeste
pelo Rhône e ao sul pelo Mediterrâneo. Ali, é proibido entrar em um restaurante,
comer e sair correndo. Apreciar o aroma e a arte dos saborosos pratos
feitos delicadamente para servir aos mais finos e requintados paladares
é quase obrigatório. Nosso roteiro levava em conta a beleza da paisagem
- quase sempre por estradas secundárias, entre campos fl oridos e alamedas
de árvores - e a facilidade de acesso com bicicleta a locais que valem
a pena serem vistos.
Na
manhã seguinte à chegada em Avignon, entrei num ônibus fretado para uma
viagem de 25 quilômetros até a vila de Boulbon, onde nossas bicicletas
nos esperavam. Senti imediatamente que nossos guias, Jean-Louis Doss e
Libby Dalrymple, pacientes e amigáveis canadenses de 35 anos, seriam excelentes
companhias. E o itinerário parecia um passeio ciclístico pelo céu: sete
dias de petit déjeneur (café-da-manhã), almoço e jantar, intercalados
por pedaladas de 30 a 60 quilômetros pelas inebriantes e ensolaradas paisagens
do vale do Rhône, numa região conhecida como Côtes du Rhône Gardoise,
com atrações como ruínas romanas, castelos medievais, vinícolas, lugarejos
com vielas estreitas demais para a circulação de carros e restaurantes
de alta gastronomia.
O
itinerario parecia um passeio ciclistico pelo ceu: sete dias de
petit dejeneur (cafe-damanha), almoco e jantar, intercalados
por pedaladas de 30 a 60 quilometros pelas inebriantes e
ensolaradas paisagens do vale do Rhone |
Cicloglamour
Eu divagava sobre a pequena fortuna de US$ 9.790 por casal que meus queridos
amigos ciclistas-gourmets desembolsaram pela viagem - sem contar passagens
de avião, seguro e comprinhas num país com preços exorbitantes, onde um
café expresso pode custar US$ 6 - e meu bobo e preconceituoso instinto
me fez julgá-los como uns cinqüentões reacionários e chatos.
Quando Jean-Louis me apresentou à minha bicicleta, vi que levava o rótulo
"Dálmata" impresso em seu quadro e um crachá com o meu nome. Olhando melhor,
vi que todas as bikes tinham uma alcunha divertida e o nome de seu proprietário.
Eram magrelas para cross country superleves e modernas, manufaturadas
especialmente para a B&R pela Rocky Mountain Bicycles. Afinei-a como
um violino, ajustando banco, suspensão, guidão e até toquei a buzininha.
Passeei por suas 27 marchas e desci quarteirão abaixo, à frente do grupo.
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